Na última quinta-feira, 16 de outubro, foram apresentados os resultados do mais recente ciclo do RASA – Ranking da Atuação Socioambiental de instituições financeiras, que dessa vez avaliou instituições financeiras de desenvolvimento (IFDs). Participaram do evento Luciane Moessa, Diretora Executiva e Técnica da SIS, que apresentou os resultados e fez a mediação do debate; Rariany Monteiro, Head de Regulação Financeira Positiva para a Natureza do WWF Brasil; Christianne Maroun, Coordenadora-geral do Climate Finance Hub Brasil; e Fernanda Westin, Gerente de Projetos do Centro Brasil no Clima (CBC).
Na live, foram apresentados os resultados da avaliação da atuação socioambiental de bancos de desenvolvimento e agências de fomento. Este foi o segundo ciclo de avaliação dedicado a esta categoria de instituições, sucedendo a primeira análise realizada em 2023.
Nesta edição, foi avaliado um total de 20 instituições: quatro bancos de desenvolvimento — no nível nacional, o BNDES; no nível regional, BRDE (Região Sul), BDMG (Minas Gerais) e BANDES (Espírito Santo) — além de 16 agências de fomento estaduais: AFEAM, AFAP, Desenvolve Roraima, Fomento Tocantins, AGE, AGN, Desenvolve Alagoas, DESENBAHIA, BADESPI (Piauí), Desenvolve MT, Goiás Fomento, Desenvolve SP, AgeRio, Fomento Paraná, BADESC e BADESUL. Ficou em primeiro lugar geral a AFEAM, do Amazonas, em segundo lugar o BNDES e em terceiro o BDMG.
O levantamento e análise de informações públicas (seguido do envio de informações adicionais pelas instituições que atenderam ao convite da SIS) foi realizado de julho a outubro deste ano e abrange seis eixos de avaliação:
- Temas ASG nas Políticas Gerais e Setoriais
- Gerenciamento de riscos ASG (abrangendo Bases de dados consultadas e diligências realizadas, Mitigação de Riscos, Monitoramento de Riscos e Relevância de fatores ASG no processo decisório)
- Avaliação da composição do Portfólio (considerando setor econômico, conhecimento sobre a localização das atividades e perfil de risco socioambiental das empresas financiadas)
- Produtos Financeiros com Impacto Ambiental ou Social Positivo
- Governança da Sustentabilidade
- Envolvimento em controvérsias socioambientais
Apesar de avanços, lacunas importantes persistem
Para Luciane Moessa, Diretora Técnica e Executiva da SIS, o avanço na adoção de práticas socioambientais por parte dessas instituições é essencial para que o financiamento público contribua efetivamente com a transição para uma economia mais sustentável. Segundo ela, ainda há uma distância entre o discurso institucional e a efetiva incorporação de critérios ASG no cotidiano dessas operações, o que reforça a importância de ferramentas de monitoramento e transparência como o RASA.
Apesar da nota da maioria das instituições ter melhorado do ciclo de 2023 para este de 2025, ainda há várias lacunas de informação e de ação, como uma identificação de riscos extremamente deficiente, em que a maioria das IFDs não consulta bases de dados ambientais estaduais, por exemplo, quando a maior parte da competência para atuar em matéria ambiental é da esfera estadual, não consulta dados sobre saúde e segurança do trabalho na base de dados disponível online do Ministério do Trabalho (limitando-se a consultar a lista suja do trabalho escravo, como se a agenda social se limitasse a isso). Outra deficiência clara, em que são exceções apenas as duas IFDs classificadas em primeiro e segundo lugar, diz respeito à necessidade de adoção de políticas por setor econômico, com indicadores-chave de desempenho específicos para cada setor, pois os riscos e impactos são muito distintos.
Importância da localização para a análise de riscos
Entre os principais pontos debatidos na live, destacou-se a necessidade de aprimorar a forma como as instituições financeiras identificam os locais onde os impactos socioambientais de seus financiamentos realmente ocorrem. Luciane alertou que muitas instituições ainda se limitam a considerar a localização da sede das empresas a serem financiadas – o que não é um problema no caso das pequenas e médias empresas (que só possuem um estabelecimento), financiadas pelas agências de fomento, mas é um problema no caso de grandes empresas, pois é preciso considerar os locais das operações, deixando de observar os estabelecimentos ou áreas onde as atividades ocorrem de fato.
Essa lacuna prejudica a avaliação dos riscos climáticos físicos (como estiagens, enchentes e outros eventos extremos) e dos impactos das operações dos empreendimentos e empresas financiados – podendo, desta forma, limitar a proteção de comunidades tradicionais, áreas de biodiversidade e zonas costeiras. “Se eu não sei onde está o empreendimento, não consigo avaliar o risco climático físico. A localização é fundamental”, destacou Luciane.
Christianne Maroun, Cordenadora-Geral do Climate Finance Hub Brasil, reforçou a questão: “é importante financiar uma infraestrutura que seja resiliente também, com planejamento territorial”, avaliou, defendendo que essas análises têm que ser feitas do ponto de vista de se pensar Adaptação às mudanças climáticas, não só Mitigação. Ela também chamou a atenção para a necessidade de tratar dos riscos na cadeia de produção e Luciane esclareceu que esse tema é abordado nas cláusulas socioambientais incluídas nos contratos de crédito e nos Planos de Ação elaborados quando as instituições financeiras se engajam com as empresas financiadas.
Integração com outros estudos e fontes de informação
Rariany Monteiro, do WWF Brasil, abordou como o RASA aprofunda e complementa avaliações realizadas pelo WWF. Rariany observou que o WWF tem buscado – por meio de sistemas como o Sustainable Financial Regulations and Central Bank Activities (SUSREG), voltado para Bancos Centrais e reguladores bancários, e o Sustainable Banking Assessment (SUSBAN), que avalia bancos, – influenciar o setor financeiro a incluir critérios ambientais mais robustos. O RASA, segundo ela, aprofunda as análises e ajuda a medir e acompanhar esse avanço. Ela chamou a atenção para o fato de que o Banco Central do Brasil se sai bem no SUSREG, mas os bancos brasileiros apresentam mau desempenho no SUSBAN, revelando que a atuação regulatória não tem influenciado o mercado o suficiente.
A representante do WWF sugeriu que, nos próximos ciclos voltados para instituições financeiras de desenvolvimento, o RASA avalie se há uma conexão mais clara entre as políticas e métricas AESG adotadas pelas instituições financeiras – especialmente as públicas – e as metas climáticas globais, como as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, da sigla em inglês). Para ela, documentos institucionais deveriam explicitar como as atividades e investimentos se conectam com a missão climática nacional.
Já Fernanda Westin, do Centro Brasil no Clima (CBC), apresentou alguns dados que constam do “Anuário Estadual de Mudanças Climáticas”, publicado pelo CBC, e destacou que a metodologia do RASA pode ser aplicada como uma ferramenta complementar nas análises conduzidas pela organização a respeito das agências de fomento ou bancos de desenvolvimentos estaduais.
Ela explicou que o anuário mapeia políticas e planos estaduais de mitigação e adaptação, a capacidade institucional dos órgãos encarregados de implementá-los, bem como os fundos climáticos e ambientais existentes. Segundo Fernanda, “muitos fundos foram criados, mas não têm orçamento; vários dependem de recursos externos ou do próprio BNDES” – uma das instituições analisadas no RASA.
Resultados
Os resultados completos deste ciclo podem ser acessados no site do RASA, onde é possível consultar os resultados gerais, e, ainda, segmentados para cada uma das 20 instituições analisadas, onde são apresentados os pontos em que elas se destacam positivamente, aqueles em que estão na média e os pontos negativos. São ainda apresentadas boas práticas, quando foi possível identificá-las.
Também é possível conhecer os rankings de acordo com os temas analisados no estudo:
- Temas ASG nas Políticas
- Gerenciamento de Riscos ASG
- Avaliação da Composição do Portfólio
- Produtos Financeiros com Impacto Ambiental ou Social Positivo
- Governança da Sustentabilidade
- Envolvimento em controvérsias socioambientais
E para ver a íntegra do evento de lançamento, acesse a gravação no nosso YouTube.

