
Na última quarta-feira, 30 de outubro, a Associação Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS) realizou a 15ª edição do Bate-papo Inclusivo e Sustentável (BIS), com o tema “Ferramentas para Avaliação de Riscos e Oportunidades Climáticas e Socioambientais nos setores de Agricultura, Pecuária e Florestas”.
O evento marcou o lançamento dos Questionários para Avaliação de Desempenho Climático e Socioambiental e de Avaliação de Cumprimento da Legislação Socioambiental, voltados aos setores de Agricultura, Pecuária bovina (de corte e leiteira), Silvicultura e Manejo Florestal. A ferramenta é direcionada a instituições financeiras e outras empresas para identificar riscos e oportunidades em operações e cadeias produtivas.
Luciane Moessa, Diretora Executiva e Técnica da SIS, apresentou a iniciativa, destacando que a ferramenta permitirá às instituições mapear riscos e oportunidades ASG e comparar objetivamente o desempenho de imóveis rurais e empresas do mesmo setor e região. “Isso pode ser usado nas decisões sobre concessão de crédito, investimentos e seguros, uma vez que o desempenho socioambiental e climático tem relação direta com a rentabilidade no agronegócio”, explicou.
Ela detalhou que os questionários foram desenvolvidos a partir de um amplo mapeamento de padrões globais e nacionais, incluindo SASB, TNFD, IFRS, ISE e IBAMA, entre outros, e consideraram ainda taxonomias verdes de diversos países. Entre as inovações da metodologia da SIS estão: a separação entre indicadores para imóveis rurais e para empresas da cadeia, tornando a ferramenta mais operacional; a distinção entre indicadores para os quais ae localização é irrelevante ou essencial para análise de riscos climáticos e socioambientais; e a elaboração de um questionário básico sobre conformidade legal aplicável a cada segmento. Ela também observou que o ideal seria elaborar questionários por cultura agrícola e atribuir peso a cada tema ou indicador. Além disso, ela sublinhou que, para empresas da cadeia, há outros indicadores relevantes, mas que, por serem transversais (válidos para qualquer setor econômico), serão objeto de outra publicação da SIS. Os slides que ela usou na apresentação estão disponíveis aqui.
Luciane direcionou o primeiro questionamento aos debatedores, perguntando sobre os principais desafios para alinhar o fluxo de capitais a atividades sustentáveis em diferentes segmentos do agronegócio.
Marco Antonio Fujihara, da Aggrego, começou lembrando que a agricultura não é financiada apenas pelo setor financeiro, mas também por empresas que adquirem antecipadamente a safra, bem como por fornecedoras de insumos. Apontou como um dos principais desafios, do setor financeiro para lidar com o setor a eventual falta de georreferenciamento das propriedades, e também a ausência de conclusão nas análises do Cadastro Ambiental Rural (CAR) pelos órgãos ambientais estaduais.
Leila Harfuch, líder da Força-Tarefa de Finanças Verdes da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, apontou como principais entraves na Pecuária a dificuldade de rastreabilidade da cadeia de fornecedores – mesmo com a GTA isso não é possível por cabeça de gado, já que elas são emitidas por lotes. Com a publicação da Política Nacional de Rastreabilidade Individual de Bovinos, será possível esperar avanços. Outro desafio importante para o mercado de capitais é a dificuldade de rastrear o lastro dos instrumentos financeiros.
Bruno Youssif, da IAgro, destacou os diferentes desafios entre silvicultura – com grandes produtores organizados e ciclos longos – e manejo florestal, mais pulverizado e complexo. Apontou ainda que a transição para a economia verde nas florestas precisa ser economicamente atrativa, possivelmente por meio de financiamento combinado (blended finance).
Questionados sobre a utilidade dos questionários, Marco Fujihara respondeu fazendo uma ressalva quanto aos questionários do setor de Agricultura, apontando a importância de diferenciar culturas permanentes e anuais – já que, no caso das permanentes, elas devem ser consideradas como benfeitorias até a primeira safra. Essa diferenciação se estende tanto pelo aspecto econômico e pela sazonalidade de receitas quanto pelo ambiental e climático.
Bruno Youssif listou quatro aplicações principais: como roteiro para educar instituições financeiras; filtro de materialidade dos indicadores hoje usados em ratings de risco; capacitação de analistas de riscos; e como critérios para elaboração de pareceres em operações de emissão de títulos temáticos (verdes/sociais/sustentáveis).
Leila Harfuch afirmou que vê o material como um guia para definir critérios de sustentabilidade na taxonomia, uma ferramenta de melhoria de processos para empresas e um meio de autoavaliação para produtores rurais.
Ao final, Bruno Youssif defendeu uma mudança de mentalidade: “Ao invés de negar crédito, devemos entender o que falta para o produtor alcançar as exigências. O setor financeiro deve ser um agente de mudança”. Leila Harfuch concordou: “Todos os setores precisam ser agentes da mudança. Se continuarmos pela lógica da exclusão, criaremos um mercado paralelo de degradação”. Luciane Moessa ressaltou que eles propiciam que seja elaborado um diagnóstico para verificar em que temas o produtor rural ou a empresa da cadeia precisa de financiamento para ser mais sustentável.
Os questionários já estão disponíveis aqui. A gravação completa do evento pode ser acessada no canal da SIS no YouTube aqui.

