A SIS realizou, no último dia 30 de março, o 17º BIS, o Bate-papo Inclusivo e Sustentável da SIS, dando seguimento à série de eventos dedicados à apresentação de ferramentas desenvolvidas para apoiar o setor financeiro na avaliação de riscos e oportunidades climáticas e socioambientais de setores econômicos específicos.
O encontro promoveu o lançamento dos questionários de avaliação de riscos e impactos socioambientais e climáticos de empresas dos setores de Água e Esgoto e de Construção Civil (quanto a edificações, e não à infraestrutura). A iniciativa, coordenada pela Diretora Executiva e Técnica da SIS, Luciane Moessa, conta com uma equipe técnica qualificada que se debruçou sobre cada um dos setores.
A ferramenta tem o propósito de identificar empresas com desempenho superior à média para premiá-las com condições mais favoráveis de acesso a capital e a mercados, bem como apontar riscos que demandem apoio técnico e/ou financeiro para melhoria do desempenho. Eles também ajudam a identificar riscos sistêmicos em setores inteiros, como alta exposição a riscos de escassez hídrica ou de violação de direitos humanos.
Para Luciane Moessa, o objetivo também é suprir uma lacuna no setor financeiro brasileiro: maior clareza nos indicadores socioambientais e climáticos por setor econômico. “Embora a Resolução CVM 193/2023 traga padrões setoriais para clima (IFRS S2), a regulação bancária, de seguros e de previdência complementar brasileira ainda carece de critérios específicos por setor”, explicou.
Os questionários foram elaborados a partir de um mapeamento extenso de indicadores em padrões globais e nacionais, além das taxonomias que incluíram esses setores.
Os padrões utilizados foram: International Finance Corporation (IFC), Sustainability Accounting Standards Board (SASB), Global Reporting Initiative (GRI), European Federation of Financial Analysts Societies (EFFAS), Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), International Financial Reporting Standards (IFRS S1 e S2), Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD), Exploring Natural Capital Opportunities, Risks and Exposure (ENCORE), Science Based Targets initiative (SBTi) e Climate Bonds Initiative (CBI); Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3 e a Instrução Normativa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IN IBAMA 22/2021). As taxonomias consultadas foram: União Europeia, África do Sul, Quênia, China, Singapura, Indonésia, Tailândia, Sri Lanka, Mongólia, Austrália, México, Panamá, Chile, Brasil e Colômbia. Esse mapeamento é complementado por indicadores que constam em padrões de associações setoriais, estudos, relatórios ou artigos científicos, bem como propostos pela equipe de especialistas da SIS.
Luciane Moessa destacou a inovação metodológica da SIS, que foi a separação dos indicadores-chave de desempenho em duas categorias: aqueles para os quais a localização da atividade econômica é relevante, como gestão de efluentes ou poluição atmosférica; e aqueles para os quais a localização é irrelevante, como emissões de GEE e saúde e segurança do trabalho. Para ver os slides usados por Luciane, clique aqui.
Participaram do debate Cristiane Silveira de Lacerda, Ph.D e membro da equipe técnica setorial da SIS e Diretora Geral da Ecoconstruct; Lilian Sarrouf, que contribuiu com a Taxonomia para o setor de Construção Civil e atua com sustentabilidade em entidades representativas do setor de Construção Civil (SindusCon SP e Comitê Brasileiro de Construção Civil); Sergio Antonio Gonçalves, Diretor Executivo da AESBE (Associação das Empresas Estaduais de Saneamento); Paula Pollini, arquiteta e urbanista, Mestre em Planejamento e Gestão do Território e integrante do Instituto de Água e Saneamento, organização da sociedade civil especializada em temas de abastecimento de água e serviços de esgotamento sanitário para populações periféricas; e Juan Carlo Silva Abad, Gerente de Risco Socioambiental da Caixa Econômica Federal. Para ver os slides, clique aqui.
Cristiane Lacerda compartilhou exemplos práticos de projetos viáveis em termos de sustentabilidade, como o caso do Mineirão em 2014, com a maior usina fotovoltaica instalada em um estádio de futebol no mundo à época, bem como captação de água da chuva para irrigação do gramado, dentre outras soluções com comprovado impacto positivo, como o reaproveitamento de resíduos sólidos, o uso de películas 3M em vidros, para reduzir em 60% os impactos do calor, o uso de telhados verdes para reduzir ilhas de calor, o uso de lava-rodas em veículos para não espalhar poeira da construção nos arredores. Destacou sua satisfação com iniciativas como o selo azul da Caixa e o selo LEED, reconhecendo seu papel na valorização de soluções sustentáveis.
Na sequência, Lilian Sarrouf destacou que sustentabilidade é uma questão de competitividade, defendendo um olhar adequado ao porte dos empreendimentos e suas especificidades, além de ver as Taxonomias como oportunidade de ampliação de oportunidades de financiamento. Ela relata o seu orgulho com o fato de que a construção civil no Brasil tem atuado com um perfil de emissão de gases de efeito estufa (220 kg de carbono equivalente por metro quadrado), que é 60% inferior à média global, salientando iniciativas fundamentais como a calculadora de emissões de GEE (cecarbon.com.br) e a calculadora da pegada hídrica (cehidrica.com.br), que está sendo construída. Lilian também deixou o convite para aqueles interessados no tema, a participarem do Grupo de Estudos permanente no âmbito do CB-002 – Comitê Brasileiro da Construção da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), para manter as discussões sobre o tema de forma perene e atuante. Saiba mais em https://normalizacaoee.com.br/. Para ver os slides, clique aqui.
Paula Pollini apresentou o setor de Saneamento como “estruturante”, com destaque para o marco legal que determina exigências mínimas, mas ainda demonstra a necessidade de uma maior uniformidade e de metas mais claras. Observou desafios relacionados às desigualdades regionais e à redução de disponibilidade hídrica, tornando urgente reduzir o consumo e reduzir as perdas na distribuição. Além disso, ela sublinhou que à sustentabilidade climática se soma o desafio da sustentabilidade econômica, tornando necessário debater e implementar a tarifa social e os custos de manutenção, mesmo quando se trata de soluções alternativas, pensadas para populações periféricas.
Sergio Antonio Gonçalves complementou, focando na crise climática e na necessidade de repensar técnicas e soluções de tecnologias para resiliência climática, com olhar para especificidades, vulnerabilidades e questões socioeconômicas regionais, além de identificar custos e o modelo de saneamento, com uma abordagem humana e colaborativa, atenta a subsídios que garantam a universalização dos serviços e à necessidade de prevenção de perdas (as perdas de água na distribuição no Brasil são da ordem de 43%). Ele lembrou que no Brasil há inclusive desafios relativos à disponibilidade de equipamentos e de insumos para o setor, bem como de conhecimento técnico necessário.
Por fim, Juan Carlo Silva Abad, Gerente de Risco Socioambiental da Caixa Econômica Federal, concluiu com uma análise técnica, sugerindo o aprofundamento de indicadores específicos em especial no setor de Água e Esgoto, como eventuais reassentamentos involuntários de grupos vulneráveis ou impactos em patrimônio cultural ou arqueológico quando da construção das redes. Ele reforçou a importância dos questionários setoriais, a necessidade de tratar da adaptação às mudanças climáticas e de considerar a localização dos empreendimentos, usando também bases públicas de dados sobre riscos climáticos, como o Adapta Brasil. Seguimos desempenhando a missão de aprofundar a forma como o setor financeiro mapeia e mitiga riscos socioambientais, na busca por um saldo socioambiental sempre positivo nos empreendimentos. Para assistir à gravação do 17º BIS, clique aqui. Os questionários já estão disponíveis e podem ser acessados no site da SIS, aqui. Os próximos setores a serem abordados são: Destinação de Resíduos, Energia, Transporte Terrestre e Pesca e Aquacultura.
Esse trabalho de mapeamento de indicadores climáticos e socioambientais por setores econômicos foi possível graças ao apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), a quem a SIS sinceramente agradece.

