A SIS realizou, no último dia 4 de maio, o 18º BIS, o Bate-papo Inclusivo e Sustentável da SIS, dando sequência à série de eventos dedicados à apresentação de ferramentas desenvolvidas para apoiar o setor financeiro na avaliação de riscos e oportunidades climáticas e socioambientais de setores econômicos específicos.O encontro marcou o lançamento dos questionários de avaliação de riscos e impactos socioambientais e climáticos de empresas dos setores de Destinação de Resíduos (abrangendo aterros sanitários e industriais, captura de gás de aterros, compostagem, reciclagem e incineração) e Bioenergia (biomassa, biogás e biocombustíveis). A iniciativa, coordenada pela Diretora Executiva e Técnica da SIS, Luciane Moessa, contou com uma equipe técnica qualificada que se debruçou sobre cada um dos setores.
A ferramenta tem como objetivo identificar empresas com desempenho socioambiental e climático superior à média para premiá-las com condições mais favoráveis de acesso a capital e a mercados. Ao mesmo tempo, permite mapear riscos que demandem apoio técnico e/ou financeiro para melhoria do desempenho, além de contribuir para a identificação de riscos sistêmicos em setores inteiros, como elevada exposição à escassez hídrica ou riscos de violação de direitos humanos na cadeia de fornecedores.
Para Luciane Moessa, a iniciativa também busca suprir uma lacuna no setor financeiro brasileiro: a ausência de maior clareza e padronização de indicadores socioambientais e climáticos por setor econômico. “Embora a Resolução CVM 193/2023 traga padrões setoriais para clima (IFRS S2), a regulação bancária, de seguros e de previdência complementar brasileira ainda carece de critérios específicos por setor”, destacou.
Os questionários foram elaborados com base em um amplo mapeamento de indicadores presentes em padrões nacionais e internacionais. Os padrões utilizados foram: International Finance Corporation (IFC), Sustainability Accounting Standards Board (SASB), Global Reporting Initiative (GRI), European Federation of Financial Analysts Societies (EFFAS), Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), International Financial Reporting Standards (IFRS S1 e S2), Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD), Exploring Natural Capital Opportunities, Risks and Exposure (ENCORE), Science Based Targets initiative (SBTi) e Climate Bonds Initiative (CBI); Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3 e a Instrução Normativa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IN IBAMA 22/2021). Também foram consideradas e incluídas as tecnologias sustentáveis presentes nas taxonomias de diferentes países e regiões, quando elas incluem os setores, incluindo União Europeia, África do Sul, Gana, Ruanda, Colômbia, México, Panamá, República Dominicana, Costa Rica, El Salvador, Honduras, Chile, Paraguai, Brasil, Austrália, Jordânia, China, Coreia do Sul, Indonésia, Tailândia, Singapura e Sri Lanka. Esse levantamento foi complementado por indicadores que constam em padrões de associações setoriais, estudos, relatórios ou artigos científicos, bem como por contribuições da equipe de especialistas da SIS.
Como inovação metodológica, Luciane Moessa destaca a classificação dos indicadores-chave de desempenho em duas categorias: aqueles para os quais a localização da atividade econômica é relevante, como gestão de efluentes e poluição atmosférica, e aqueles para os quais ela não é, como emissões de GEE e indicadores de saúde e segurança do trabalho. Para ver os slides usados por Luciane, clique aqui.
Como debatedores participaram Joice Maciel, da Apoena Socioambiental, especialista em destinação de resíduos; Maria Clara Pontelli, que atua na ABIOGÁS (Associação Brasileira do Biogás); Paulo Costa, CEO da House of Carbon e especialista em biocombustíveis; Lucas Ramalho, Secretário Adjunto de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria, que tem liderado diversas iniciativas governamentais nas agendas de Economia Circular, Bioeconomia e atividades econômicas com impacto ambiental e/ou social positivo.
Joice Maciel apresentou um diagnóstico crítico da gestão de resíduos sólidos urbanos no Brasil, sustentado por dados que evidenciam a magnitude do desafio: o país gera cerca de 88 milhões de toneladas de resíduos por ano, com média de 1,14 kg por habitante/dia, sendo quase metade composta por matéria orgânica. Entretanto, a especialista destacou que apenas cerca de 29,2% dos Municípios (correspondentes a 40,2% da população) contam com coleta seletiva e existem apenas 104 unidades de compostagem no país, o que representa apenas 0,24% do total de unidades de processamento de resíduos. Joice ressaltou ainda que 94% dos resíduos sólidos urbanos ainda são destinados a aterros ou formas similares. Para mais dados produzidos pelo time de pesquisadores da Aliança Resíduo Zero Brasil (ARZB) acessar: https://residuozero.org.br/biblioteca/. Para ver os slides, clique aqui.
Maria Clara Pontelli destacou o potencial do biogás e do biometano como soluções estratégicas para o aproveitamento energético de resíduos, apoiando sua análise em dados do CIBIO (panorama nacional de biogás, lançado em abril de 2025). Segundo a especialista, o Brasil já conta com mais de 1.800 usinas de biogás em operação, com capacidade próxima a 5 bilhões de m³ por ano. O setor de saneamento — que engloba resíduos sólidos urbanos e efluentes de esgoto — é responsável por cerca de 64% do volume produzido, embora corresponda ao menor número de usinas; já os resíduos do setor agropecuário são processados em mais de 80% das usinas, porém com volume proporcionalmente menor. O número de usias de biometano ainda é limitado, com apenas 19 autorizadas pela ANP e 48 em processo de autorização, evidenciando o espaço para expansão. Entre os principais desafios, enfatizou que as barreiras no Brasil não são mais tecnológicas, mas sim relacionadas à infraestrutura e à regulação: a limitação da rede de gasodutos (concentrada no litoral, dificultando a distribuição do biometano), enquanto a falta de harmonização regulatória entre Estados gera insegurança para investidores. Por outro lado, destacou avanços importantes, como a criação de instrumentos de valorização do atributo ambiental, a exemplo dos certificados de garantia de origem instituídos pela Lei do Combustível do Futuro, que permitem ao produtor comercializar separadamente a molécula e o atributo ambiental, e criando uma obrigatoriedade mínima de utilização de biometano no gás natural, melhorando a competitividade e atratividade do setor.
Paulo Costa abordou a evolução do setor de biocombustíveis no Brasil, destacando sua capacidade de transformar passivos ambientais em ativos econômicos. Segundo ele, cadeias como as do etanol e do biodiesel vêm incorporando resíduos, como bagaço de cana, vinhaça e óleos residuais (como óleo de cozinha usado), na geração de energia e de novos produtos, promovendo ganhos de eficiência e sustentabilidade. Esse avanço, afirmou, tem sido fortemente impulsionado por políticas públicas, em especial o RenovaBio, que já conferiu certificação energético-ambiental a cerca de 80% da produção nacional de biocombustíveis e se consolidou como um marco na monetização do atributo ambiental e na aproximação com o mercado de capitais. Costa destacou ainda que o etanol já substitui aproximadamente 30% da gasolina, enquanto o biodiesel alcança cerca de 15% de mistura no diesel, evidenciando o impacto dessas políticas na matriz energética. Nesse contexto, ressaltou a importância de ampliar a distribuição de renda ao longo da cadeia, incluindo cooperativas de produtores e catadores, e de fortalecer a integração entre políticas públicas e iniciativas privadas. Para ele, o avanço de indicadores mais abrangentes, como os propostos pela SIS, é fundamental para aprimorar a precificação dos impactos e orientar investimentos, ampliando o alcance socioambiental positivo do setor.
Por fim, Lucas Ramalho trouxe uma perspectiva sistêmica ao relacionar a agenda de resíduos e bioenergia ao desafio mais amplo do desenvolvimento sustentável, destacando o papel estratégico da bioeconomia nesse processo. Segundo ele, o Brasil reúne condições únicas para se posicionar como uma “bioeconomia industrial” global, ao combinar alta capacidade de produção de biomassa com potencial de integração entre agropecuária e indústria, diferentemente de modelos baseados em combustíveis fósseis ou eletrificação intensiva. O debatedor ressaltou, no entanto, que a superação dos desafios socioambientais exige modelos que se sustentem financeiramente, uma vez que os problemas são gerados em escala industrial, mas ainda enfrentados predominantemente com recursos de governo e filantropia. Em escala global, lembrou que a implementação das metas da Agenda 2030 demanda cerca de US$ 45 trilhões, valor que evidencia a insuficiência do financiamento público e filantrópico isoladamente. No Brasil, esse descompasso se reflete no setor de resíduos que, conforme dado apresentado por Joice Maciel e retomado por Ramalho, ainda opera com despesas em torno de R$ 34 bilhões frente a receitas de aproximadamente R$ 13 bilhões, reforçando sua percepção como custo, e não como oportunidade. Para Ramalho, é fundamental avançar na criação de modelos de negócio sustentáveis e mecanismos de incentivo que alinhem impacto socioambiental positivo com viabilidade econômica, ampliando a participação do setor privado e viabilizando a transição para uma economia circular e de impacto em escala. Ele salientou o potencial extraordinário do Brasil na produção de biomassa, por se tratar de uma potência agropecuária, e alguns ótimos exemplos já existentes, como a reciclagem do alumínio, o reaproveitamento de óleos lubrificantes de veículos (da ordem de 100%) e os projetos-piloto de produção de combustível sustentável para aviação, a partir de óleo de cozinha usado e também de macaúba.
Esse trabalho de mapeamento de indicadores climáticos e socioambientais por setores econômicos foi possível graças ao apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), a quem a SIS sinceramente agradece.
Para assistir à gravação do 18º. BIS, clique aqui.
Os questionários estão disponíveis no site da SIS aqui: www.sis.org.br/questionarios-setoriais/
Os próximos setores a serem abordados são: Energia (eletricidade e combustíveis), Transporte Terrestre e Pesca e Aquacultura.

