No último dia 17 de setembro, a SIS promoveu o 19º BIS (Bate-papo Inclusivo e Sustentável), consolidando mais uma etapa na trajetória de desenvolvimento de ferramentas para avaliação de riscos ASG pelo setor financeiro. O encontro marcou o lançamento o da 7ª publicação da série dedicada à avaliação setorial de riscos e oportunidades climáticas e socioambientais, contemplando os segmentos de Transportes Terrestres (ferroviário de cargas, rodoviário de cargas e transporte coletivo) e Pesca e Aquicultura (pesca industrial, artesanal e aquicultura). A iniciativa é fruto do trabalho da equipe técnica da SIS, sob coordenação da Diretora Executiva e Técnica, Luciane Moessa.
A ferramenta tem como objetivo identificar empresas com desempenho socioambiental e climático superior à média para premiá-las com condições mais favoráveis de acesso a capital e a mercados. Ao mesmo tempo, permite mapear riscos que demandem apoio técnico e/ou financeiro para melhoria do desempenho, além de contribuir para a identificação de riscos sistêmicos em setores inteiros, como elevada exposição a riscos climáticos físicos, impactos na biodiversidade e dependências dos ecossistemas.
Na abertura do evento, Luciane contextualizou a escolha dos dois setores que, embora com pouca relação direta entre si, compartilham uma forte exposição a impactos socioambientais críticos e uma dependência direta de um olhar setorial aprofundado por parte de instituições financeiras e parceiros comerciais. Adicionalmente, salientou a complexidade inerente às avaliações de risco ASG, pontuando que a análise de métricas financeiras tradicionais, como endividamento ou patrimônio, não é suficiente para capturar a exposição de um negócio a riscos dessa natureza. Concluiu afirmando que variáveis como a localização exata das operações e os indicadores específicos do setor econômico de atuação da empresa são determinantes para mensurar riscos climáticos e socioambientais.
Assim, esta iniciativa visa preencher uma lacuna persistente no mercado brasileiro. Com exceção da Resolução CVM 193/2023, que introduziu o relato financeiro de clima via padrão IFRS S2, o arcabouço regulatório bancário, de seguros e de previdência complementar no país ainda carece de parâmetros mínimos estruturados por setor.
Para garantir robustez metodológica, a SIS realizou um extenso levantamento de referências nacionais e globais. A elaboração dos questionários combinou diretrizes de órgãos internacionais (IFC, SASB, GRI, EFFAS, ODS, IFRS S1 e S2, TNFD, ENCORE, SBTi e Climate Bonds Initiative), iniciativas nacionais (ISE B3 e IN IBAMA 22/2021) e parâmetros de sustentabilidade presentes nas taxonomias dos países que abordaram esses setores. Esse levantamento foi complementado por indicadores que constam em padrões de associações setoriais, estudos, relatórios ou artigos científicos, bem como por contribuições da equipe de especialistas da SIS. No caso de pesca e aquicultura, o estudo foi aprofundado com a inclusão de padrões de entidades setoriais especializadas, como a FAO e o Marine Stewardship Council (MSC), além de pesquisas acadêmicas.
Como principal avanço metodológico, Luciane destacou a segregação dos indicadores entre aqueles em que a localização das atividades é determinante, a exemplo dos impactos em ecossistemas locais, efluentes e biodiversidade, e aqueles de alcance global ou corporativo, como a gestão de emissões de GEE e a saúde e segurança do trabalho. Para acessar os slides apresentados por Luciane Moessa, clique aqui.
Como debatedora para o setor de Transportes Terrestres, pudemos contar com a participação de Sofia Zanella Carra, Diretora de Transição Climática no Climate Finance Hub, especializada na avaliação de maturidade de transição climática corporativa.
Sofia apresentou resultados inéditos de um estudo do Climate Finance Hub que avaliou a maturidade da transição climática no setor de transportes, Sofia relatou um forte desafio metodológico devido ao número reduzido de empresas com transparência mínima de dados públicos (inventários de emissões e relatórios de sustentabilidade). Na amostra analisada (de apenas 6 empresas), o transporte rodoviário registrou nota média de desempenho de apenas 1,4 (em uma escala até 20), com narrativa qualificada como classe D (em uma escala até A), enquanto o setor ferroviário obteve 3,8, com narrativa C, revelando tendências de curto e médio prazo ainda negativas para ambos os modais.
Entre os principais gargalos identificados no setor rodoviário, a especialista apontou a ausência de metas estruturadas de descarbonização cobrindo os escopos 1, 2 e 3, a falta de dados de intensidade histórica de emissões e a reduzida supervisão climática pela alta Diretoria. Além disso, destacou que os investimentos de capital (CapEx) e iniciativas de P&D em frotas de baixo carbono (como elétricas ou a gás) permanecem restritos a projetos-piloto, sem ganhos de escala. No segmento de passageiros urbanos, nenhuma empresa atendeu aos critérios mínimos de divulgação de dados para avaliação. Por outro lado, Sofia enfatizou que o método da iniciativa ACT apresenta uma alta sinergia (entre 70% e 94%) com a norma IFRS S2, indicando que a adoção futura desse padrão regulatório trará um salto decisivo na transparência corporativa do setor. Ela também realizou uma comparação entre a metodologia ACT (com foco climático) e o mapeamento realizado pela SIS, que abrange também aspectos socioambientais. Para ver os slides apresentados por Sofia Zanella Carra, clique aqui.
Já para o setor de pesca e aquicultura, foi debatedora Maria del Carmen, Nature Finance Content Lead na Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD), Maria del Carmen trouxe a perspectiva global da TNFD ao demonstrar como instituições financeiras e corporações estão migrando a pauta da natureza de uma abordagem de conformidade para uma gestão estratégica de riscos financeiros. Explicou que a dependência de serviços ecossistêmicos, como a qualidade da água e a regulação de habitats, se traduz diretamente em riscos operacionais, regulatórios e reputacionais. Como exemplo prático, citou o caso ocorrido no Sul da Austrália, onde a proliferação de algas nocivas causou o colapso de estoques comerciais e gerou suspensões regulatórias de pesca, resultando em perdas financeiras estimadas em 100 milhões de dólares australianos, devido à suspensão da pesca na região por um período de quase 2 anos.
Ao detalhar o estudo de caso da TNFD focado no setor pesqueiro, Carmen demonstrou que empresas portadoras de certificações socioambientais (como a MSC) já contam com dados para responder prontamente a 17 das 24 métricas de natureza da TNFD, facilitando o relato para o mercado. Em escutas realizadas com investidores internacionais, a instituição identificou que as decisões de alocação de capital e análise de risco no setor priorizam cinco indicadores primordiais: a saúde e o status dos estoques pesqueiros, a proteção de espécies ameaçadas de extinção, a mitigação da captura incidental (by-catch), o combate rigoroso à pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (IUU) e a adoção de equipamentos e tecnologias de menor impacto. Para ver o estudo de caso apresentado por Maria del Carmen, clique aqui.
Esse trabalho de mapeamento de indicadores climáticos e socioambientais por setores econômicos foi possível graças ao apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), a quem a SIS sinceramente agradece.
Para assistir à gravação do 19º BIS, clique aqui.
Os questionários estão disponíveis no site da SIS aqui: www.sis.org.br/questionarios-setoriais/

